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O que o CNPJ público já responde

Os dados abertos da Receita Federal qualificam uma empresa inteira antes de qualquer consulta paga — desde que se saiba o que cada campo promete, o que ele não promete, e onde termina o que um arquivo público consegue responder.


Antes de comprar qualquer base, vale saber o que o Estado brasileiro já publica de graça sobre toda empresa com CNPJ. É mais do que a maioria dos times imagina — e menos do que os fornecedores costumam sugerir.

A Receita Federal publica os Dados Abertos do CNPJ como arquivos CSV separados por ponto e vírgula, no formato de carga direta para banco relacional, republicados mês a mês. São quatro tabelas principais — Empresas, Estabelecimentos, Sócios e Dados do Simples — mais as tabelas de domínio que traduzem os códigos: CNAEs, Naturezas Jurídicas, Municípios, Países e Qualificações de Sócios.

O que existe em cada tabela

Empresas traz o nível da matriz: razão social, natureza jurídica, qualificação do responsável, capital social e porte.

Estabelecimentos é o nível que interessa a quem prospecta, porque é onde a empresa tem endereço e atividade: identificador matriz/filial, nome fantasia, situação cadastral e a data do evento, motivo da situação, data de início da atividade, CNAE fiscal principal e a lista de secundárias, logradouro completo com CEP, UF e município, dois pares de DDD e telefone, e um campo que o layout oficial descreve, em caixa alta, como "CONTÉM O E-MAIL DO CONTRIBUINTE".

Sócios traz nome, qualificação, data de entrada na sociedade, representante legal e faixa etária — esta última em nove faixas, de 0 a 12 anos até maiores de 80.

Dados do Simples responde uma pergunta só, e responde bem: opção pelo Simples, opção pelo MEI, e as datas de entrada e de exclusão de cada um.

O que isso responde antes da primeira ligação

Pergunta de qualificaçãoCampo que responde
A empresa está de pé?SITUAÇÃO CADASTRAL — 2 é ATIVA; 3 suspensa, 4 inapta, 08 baixada
Desde quando opera?DATA DE INÍCIO ATIVIDADE
Faz o quê, na prática?CNAE FISCAL PRINCIPAL e as secundárias
É a sede ou uma filial?IDENTIFICADOR MATRIZ/FILIAL
Que regime tributário?OPÇÃO PELO SIMPLES e OPÇÃO PELO MEI
Quem pode assinar?QUALIFICAÇÃO DO SÓCIO e do representante legal

Nenhuma dessas respostas precisa de fornecedor. Todas estão num arquivo público, com layout documentado.

Três armadilhas que a documentação avisa

1. Porte é autodeclarado. O campo tem quatro valores: 00 não informado, 01 microempresa, 03 empresa de pequeno porte, 05 demais. O boletim do Mapa de Empresas é explícito na nota de rodapé: o porte "considera a informação autodeclarada pelo empreendedor no momento do registro da empresa" e "não necessariamente é atrelado de forma automática ao enquadramento mediante faturamento". Quando 93,8% das empresas ativas aparecem como micro ou pequeno porte, o que se está medindo é o que alguém digitou na abertura — às vezes há dez anos.

2. O contato é o contato fiscal. O telefone e o e-mail do estabelecimento são o canal do contribuinte perante a Receita. Nada nesse campo promete que do outro lado esteja quem decide, ou sequer quem trabalha na área que você quer alcançar.

3. É uma foto, e a foto envelhece rápido. No 2º quadrimestre de 2025 o Brasil tinha 24.213.445 empresas ativas. No mesmo quadrimestre foram abertas 1.668.753 e fechadas 942.049 — quase 7% da base entrando e cerca de 3,9% saindo em quatro meses. O grosso é MEI (1.257.036 das aberturas e 677.921 dos fechamentos), mas a ordem de grandeza não muda: uma lista extraída em março descreve um país que já não existe em julho.

Dado público é excelente para qualificar e ruim para contatar.

Onde termina o arquivo e começa o enriquecimento

Há o que o arquivo deliberadamente não entrega. O CPF dos sócios vem descaracterizado — os três primeiros dígitos e os dois verificadores são ocultados, seguindo o art. 129, § 2º da Lei nº 13.473/2017. A base pública identifica empresas, não pessoas.

E é exatamente aí que o enriquecimento começa. Nenhum arquivo da Receita diz quem responde por compras, qual o e-mail dessa pessoa, se ela ainda está na empresa ou se trocou de cargo em maio. Essas respostas só existem em bases que consultam pessoas, e elas são cobradas por resposta encontrada: na Nock, 13 créditos por e-mail profissional, 38 por e-mail pessoal, 125 por celular. Nos 2.000 créditos do plano de entrada, isso são 153 e-mails profissionais ou 16 celulares no mês.

Com esse preço na mesa, a ordem das etapas deixa de ser preferência e vira orçamento. O dado público é o filtro que roda antes da cascata, e ele custa zero:

  • CNPJ baixado, suspenso ou inapto — fora da lista antes de qualquer consulta paga;
  • aberto há três meses — provavelmente ainda não tem o problema que você resolve;
  • CNAE principal de outra coisa — a lista veio de um filtro largo demais;
  • MEI — 12.660.170 deles no país, e a maioria não tem o orçamento do seu produto.

Cada linha cortada aí é crédito que não será gasto para descobrir o celular de quem nunca ia comprar. Quem inverte a ordem paga duas vezes: gasta enriquecimento numa empresa que não devia estar na lista, e depois gasta o tempo do time falando com ela.

O que a cascata cobra por campo, e por que ela para na primeira resposta válida, é o assunto do próximo post.


Fontes